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O homem por trás do maior projeto de celulose do País

Perfil Mário Celso LopesSócio-fundador da Eldorado CeluloseSócio dos controladores do JBS-Friboi na Eldorado Celulose e na Florestal, o advogado paulista Mário Celso Lopes fez fortuna comprando e vendendo terras no Centro-Oeste brasileiro. No começo desta década, também já foi dono do maior confinamento de bois do País. O próximo ciclo de ouro da celulose no Brasil atraiu uma novata para o setor: a Eldorado Celulose. Com um investimento anunciado de R$ 4,8 bilhões, a empresa nasce com a pretensão de se tornar a maior fabricante de celulose de fibra curta do mundo, lugar hoje ocupado pela Fibria (resultado da união entre Aracruz e Votorantim Papel e Celulose). A Eldorado, cuja fábrica começa a ser construída amanhã, é uma empreitada de dois grupos empresariais que fazem negócios juntos desde 2000. O primeiro é formado pela família Batista, controladora do frigorífico JBS-Friboi. O segundo, menos conhecido, é a MCL Empreendimentos, de Mário Celso Lopes, um advogado paulista que vive uma fase tumultuada na Justiça. Seu nome corre o risco de entrar na lista suja do trabalho escravo, num processo em curso há um ano e que deve ser concluído apenas no ano que vem. Filho de pedreiro, no batente desde os 9 anos de idade, é o típico empreendedor nato. Nos últimos 30 anos, Lopes fez fortuna comprando e vendendo mais de 1 milhão de hectares de terras no Centro-Oeste. No ano passado, uma de suas fazendas – a Santa Isabel, em Pontal do Araguaia – foi flagrada numa operação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, do Ministério do Trabalho. Na ocasião, 23 seringueiros foram libertados. O empresário fez um acordo para encerrar o processo trabalhista e diz ter pago R$ 831 mil em rescisões trabalhistas, danos morais individuais e coletivos. Mas o que ele não diz é que os 25 autos de infração lavrados na operação ainda tramitam em processos administrativos na Justiça Federal, segundo informações do Ministério do Trabalho. E são eles que acabam resultando na lista suja do trabalho escravo. "O caso da fazenda Santa Isabel é considerado grave. E é quase impossível que um caso grave não vá para a lista suja", afirma Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil, de combate ao trabalho escravo. Além de arranhar a imagem dos empresários diante da opinião pública, ter o nome incluído na lista suja traz outras complicações. Os bancos públicos brasileiros são proibidos de emprestar dinheiro para quem figura nesse rol. Algumas instituições privadas vão além e já não emprestam a empresas que estão sendo investigadas. Para erguer a Eldorado, Lopes e seus sócios pleiteiam entre R$ 3 bilhões e R$ 3,2 bilhões no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O empresário espera que o dinheiro seja liberado até o fim deste mês – antes, portanto, de uma eventual inclusão do nome dele na lista. O BNDES não se manifesta sobre operações em andamento, mas informa que em casos de operações já aprovadas em que venham a ser, posteriormente, comprovados descumprimentos a essas legislações, poderá haver suspensão dos desembolsos. O empresário acredita que a ligação da instituição com o JBS-Friboi "pode facilitar a propositura do projeto" – o banco tem participação no frigorífico da família Batista e já colocou mais de R$ 7 bilhões no negócio. "Mas não influencia o resultado final porque as coisas são setorizadas no BNDES", diz. Assim como os irmãos Batista, Lopes é um dos símbolos da riqueza emergente criada pelo agronegócio nas últimas décadas. À medida que foi enriquecendo, passou a cultivar uma paixão por aviões. Hoje tem um jato Citation, um monomotor Cessna e um helicóptero Esquilo. Os fins de semana, […]

Perfil Mário Celso Lopes
Sócio-fundador da Eldorado Celulose

Sócio dos controladores do JBS-Friboi na Eldorado Celulose e na Florestal, o advogado paulista Mário Celso Lopes fez fortuna comprando e vendendo terras no Centro-Oeste brasileiro. No começo desta década, também já foi dono do maior confinamento de bois do País.

O próximo ciclo de ouro da celulose no Brasil atraiu uma novata para o setor: a Eldorado Celulose. Com um investimento anunciado de R$ 4,8 bilhões, a empresa nasce com a pretensão de se tornar a maior fabricante de celulose de fibra curta do mundo, lugar hoje ocupado pela Fibria (resultado da união entre Aracruz e Votorantim Papel e Celulose). A Eldorado, cuja fábrica começa a ser construída amanhã, é uma empreitada de dois grupos empresariais que fazem negócios juntos desde 2000. O primeiro é formado pela família Batista, controladora do frigorífico JBS-Friboi. O segundo, menos conhecido, é a MCL Empreendimentos, de Mário Celso Lopes, um advogado paulista que vive uma fase tumultuada na Justiça. Seu nome corre o risco de entrar na lista suja do trabalho escravo, num processo em curso há um ano e que deve ser concluído apenas no ano que vem.

Filho de pedreiro, no batente desde os 9 anos de idade, é o típico empreendedor nato. Nos últimos 30 anos, Lopes fez fortuna comprando e vendendo mais de 1 milhão de hectares de terras no Centro-Oeste. No ano passado, uma de suas fazendas – a Santa Isabel, em Pontal do Araguaia – foi flagrada numa operação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, do Ministério do Trabalho. Na ocasião, 23 seringueiros foram libertados. O empresário fez um acordo para encerrar o processo trabalhista e diz ter pago R$ 831 mil em rescisões trabalhistas, danos morais individuais e coletivos. Mas o que ele não diz é que os 25 autos de infração lavrados na operação ainda tramitam em processos administrativos na Justiça Federal, segundo informações do Ministério do Trabalho. E são eles que acabam resultando na lista suja do trabalho escravo. "O caso da fazenda Santa Isabel é considerado grave. E é quase impossível que um caso grave não vá para a lista suja", afirma Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil, de combate ao trabalho escravo.

Além de arranhar a imagem dos empresários diante da opinião pública, ter o nome incluído na lista suja traz outras complicações. Os bancos públicos brasileiros são proibidos de emprestar dinheiro para quem figura nesse rol. Algumas instituições privadas vão além e já não emprestam a empresas que estão sendo investigadas.

Para erguer a Eldorado, Lopes e seus sócios pleiteiam entre R$ 3 bilhões e R$ 3,2 bilhões no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O empresário espera que o dinheiro seja liberado até o fim deste mês – antes, portanto, de uma eventual inclusão do nome dele na lista. O BNDES não se manifesta sobre operações em andamento, mas informa que em casos de operações já aprovadas em que venham a ser, posteriormente, comprovados descumprimentos a essas legislações, poderá haver suspensão dos desembolsos.

O empresário acredita que a ligação da instituição com o JBS-Friboi "pode facilitar a propositura do projeto" – o banco tem participação no frigorífico da família Batista e já colocou mais de R$ 7 bilhões no negócio. "Mas não influencia o resultado final porque as coisas são setorizadas no BNDES", diz.

Assim como os irmãos Batista, Lopes é um dos símbolos da riqueza emergente criada pelo agronegócio nas últimas décadas. À medida que foi enriquecendo, passou a cultivar uma paixão por aviões. Hoje tem um jato Citation, um monomotor Cessna e um helicóptero Esquilo. Os fins de semana, ele passa com a família e os amigos na sua casa de campo à beira do rio, com 23 suítes e 5 mil metros quadrados de área construída. Os Batista estão sempre por lá.

"O rancho virou um trem grande. Depois que os irmãos Batista se mudaram para Andradina, eu construí mais suítes para eles. Hoje, eles já têm um rancho do lado do meu", diz. Os sócios da Eldorado mantêm um laço forte de amizade, iniciado há dez anos, quando Lopes vendeu seu frigorífico (MC Mouran) para os irmãos Batista. "Dos players que apareceram, eu tive mais afinidade com os Batista. Na época, eles eram pequenos e tinham apenas dois abatedouros", lembra.

Lopes se define como um empresário oportunista e diz seguir os princípios de Amador Aguiar, o fundador do banco Bradesco. "Quando todo mundo quer vender, eu compro. E vice-versa", diz. Após 30 anos de ocupação e desmatamento, aquelas mesmas terras que ele vendeu no passado tornaram-se baratas e degradadas, sem função para mais nada – exceto para plantar eucaliptos. Ciente dessa nova oportunidade de negócios, Lopes começou a comprar terras novamente cinco anos atrás. "Na minha vida, nunca teve nada planejado. Vi que estava sobrando terra, que elas estavam baratas e comecei estudar o assunto. Fui até para a Austrália conhecer a origem do eucalipto."

A porta de entrada de Lopes no setor foi uma empresa de reflorestamento. Em 2005, ele se associou ao empresário Alexandre Grendene – controlador da fabricante de calçados que leva seu sobrenome – para criar a Florágua. Dois anos depois, se aliou à família Batista e constituiu a Florestal. No ano passado, os Batista compraram a parte de Grendene e a Florágua foi convertida na Eldorado Celulose. A Florestal passou a ter como sócios os fundos de pensão Petros e Funcef, que pagaram R$ 550 milhões por 49% das ações.

A função da Florestal é fornecer matéria-prima para a Eldorado e suas concorrentes. Lopes diz que a sua empresa tem mais de 40 mil hectares de eucaliptos plantados. Alguns concorrentes veem futuro garantido para o novo competidor. Mas outros duvidam da capacidade da Eldorado de abastecer sua fábrica quando ela entrar em operação, o que é previsto para 2012. Isso porque o ciclo de crescimento de um eucalipto é de seis anos. "Em dois anos, eles não terão matéria-prima suficiente. Isso vai implicar buscar madeira longe da base, tornando o produto final menos competitivo", afirma um alto executivo do setor.

Lopes garante que será diferente. "O pessoal está sofrendo com isso, está com alguma dor de corno. Acho que eles não sabem o que a gente tem. Nós estamos com uma velocidade de plantio de 120 hectares por dia, coisa que nenhuma outra empresa tem", diz Lopes. Já no primeiro ano de operação, a Eldorado prevê produzir entre 1,1 milhão e 1,2 milhão de toneladas de celulose.

O investimento prometido para erguer a fábrica da Eldorado será um dos maiores já feitos até hoje em celulose no País. Nos últimos dez anos, o setor investiu US$ 12 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa). "O projeto sai com ou sem o BNDES. Se ele não liberar o dinheiro, temos bancos asiáticos interessadas em bancar até 100% dele", diz Lopes, sem revelar o nome dos bancos. Segundo ele, parte do projeto também será financiado por empresas estrangeiras de máquinas e equipamentos. Os sócios pretendem ainda colocar R$ 1 bilhão do próprio bolso, dividido em partes iguais.

Origem. Um dos nove filhos de um imigrante espanhol, Lopes começou a trabalhar ainda na infância, num cartório de registro de imóveis de Andradina (SP), cidade onde vive até hoje. Começava, ali, a sua especialização na intricada seara das escrituras imobiliárias. A atuação como advogado e um período como funcionário do Banco do Brasil na área de financiamento agrícola deram a Lopes as credenciais para ganhar dinheiro com terras. "Entrei nesse negócio sem querer. Comprei a primeira terra e, seis meses depois, me ofereceram cinco vezes mais. O pessoal tinha medo de comprar terra virgem. E eu já tinha passado esse filtro", conta. Com o dinheiro das terras, passou a investir em pecuária. No começo desta década, construiu o maior confinamento de bois do País, com 50 mil cabeças. A sua fortuna já foi avaliada em US$ 500 milhões, informação que ele não confirma.


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