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Trabalho escravo e desmatamento travam entrada da Petrobras na produção de etanol

Executor de um dos maiores planos de investimento do mundo, o economista José Sérgio Gabrielli revela ao iG por que a Petrobras ainda não entrou na produção de etanol como planejou há mais de dois anos. O presidente da estatal disse que a Petrobras esbarrou em um setor que ainda tem problemas que vão de trabalho escravo a desmatamento de florestas. Vencidos os obstáculos, "várias" parcerias com usineiros, segundo ele, finalmente sairão do papel. O estímulo à produção de etanol é uma das bandeiras do Brasil na Conferência Climática de Copenhague, que começou nesta semana. "Não adianta entrar no etanol de qualquer maneira. Não interessa entrar em trabalho escravo, não interessa entrar no etanol destruindo a floresta. Queremos um processo que seja sustentável, que tenha contribuição para o meio ambiente e seja também rentável", afirmou, em entrevista concedida na sede da Petrobras, no Rio. "Temos hoje vários namoros em andamento." Gabrielli falou ainda sobre as perspectivas da empresa para o consumo mundial de petróleo _crescerá em volume de barris, mas vai perder espaço para fontes alternativas em termos relativos_ e dos planos da Petrobras para reduzir a queima de gás natural nas plataformas. Na terça-feira, dia 8, o executivo confirmou que as reservas nacionais de petróleo extrapolam as fronteiras territoriais. Sobre a discussão do novo marco regulatório no Congresso Nacional, Gabrielli reiterou que não vê rompimento de contrato na possibilidade de mudança nas regras de distribuição de royalties. "Alterar a distribuição dos 10% não quebra contrato. Se alterar o percentual de 10%, aí sim tem quebra de contrato." O novo plano de negócios da empresa será divulgado no primeiro trimestre do próximo ano, com valores que vão superar os US$ 174 bilhões previstos no período de 2009 a 2012. Neste ano, a empresa investiu R$ 5,6 bilhões por mês, equivalentes a R$ 185 milhões por dia e a R$ 129 mil por minuto, conforme destacou o executivo antes da entrevista ao iG, em café da manhã para jornalistas. iG: Neste momento de preocupações com o meio ambiente com a reunião sobre mudanças climáticas, em Copenhagen, o que a Petrobras tem para oferecer?José Sérgio Gabrielli: A Petrobras tem várias atividades importantes nesta área. Tem programa de eficiência energética, pelo qual usamos menos energia para obter o mesmo resultado. Minimizamos perdas de trocas de calor, intensificamos a utilização de combustíveis com maior poder térmico, viabilizamos procedimentos que usam menos energia no processo de transformação, enfim, temos programas que são pontuais, mas importantes. Nós não podemos nem temos a pretensão de mudar a natureza atômica do produto que nós fazemos. Então vamos ter carbono, nosso hidrocarboneto tem carbono. iG: A Petrobras tenta compensar a emissão de carbono?Gabrielli: Na intensidade energética de nossos processos, de refinarias, plataformas, navios, transporte, prédios, podemos ser mais eficientes em termos energéticos. Isso faz com que a emissão no processo industrial seja menor. Segundo elemento importante: estamos fortemente comprometidos com a expansão do fornecimento de combustíveis não-fósseis para o mercado. Vamos ampliar nossa produção de etanol, de biodiesel. São mecanismos que levam o sistema a criar alternativas de uso de combustíveis que causam menor impacto no meio ambiente. iG: Não estamos falando de medidas compensatórias?Gabrielli: É claro que temos algumas medidas compensatórias, como plantar árvores ao redor de nossas refinarias, mas nossa principal estratégia não é compensatória. O problema do uso do combustível fóssil não está na produção, está no consumo. Enquanto as pessoas andarem de carro com motor a combustão e isso for importante no transporte, enquanto os combustíveis fósseis forem importantes na geração elétrica… iG: Mas se o consumo de derivados de petróleo recua a Petrobras fatura […]

Executor de um dos maiores planos de investimento do mundo, o economista José Sérgio Gabrielli revela ao iG por que a Petrobras ainda não entrou na produção de etanol como planejou há mais de dois anos. O presidente da estatal disse que a Petrobras esbarrou em um setor que ainda tem problemas que vão de trabalho escravo a desmatamento de florestas. Vencidos os obstáculos, "várias" parcerias com usineiros, segundo ele, finalmente sairão do papel. O estímulo à produção de etanol é uma das bandeiras do Brasil na Conferência Climática de Copenhague, que começou nesta semana.

"Não adianta entrar no etanol de qualquer maneira. Não interessa entrar em trabalho escravo, não interessa entrar no etanol destruindo a floresta. Queremos um processo que seja sustentável, que tenha contribuição para o meio ambiente e seja também rentável", afirmou, em entrevista concedida na sede da Petrobras, no Rio. "Temos hoje vários namoros em andamento."

Gabrielli falou ainda sobre as perspectivas da empresa para o consumo mundial de petróleo _crescerá em volume de barris, mas vai perder espaço para fontes alternativas em termos relativos_ e dos planos da Petrobras para reduzir a queima de gás natural nas plataformas.

Na terça-feira, dia 8, o executivo confirmou que as reservas nacionais de petróleo extrapolam as fronteiras territoriais.

Sobre a discussão do novo marco regulatório no Congresso Nacional, Gabrielli reiterou que não vê rompimento de contrato na possibilidade de mudança nas regras de distribuição de royalties. "Alterar a distribuição dos 10% não quebra contrato. Se alterar o percentual de 10%, aí sim tem quebra de contrato."

O novo plano de negócios da empresa será divulgado no primeiro trimestre do próximo ano, com valores que vão superar os US$ 174 bilhões previstos no período de 2009 a 2012. Neste ano, a empresa investiu R$ 5,6 bilhões por mês, equivalentes a R$ 185 milhões por dia e a R$ 129 mil por minuto, conforme destacou o executivo antes da entrevista ao iG, em café da manhã para jornalistas.

iG: Neste momento de preocupações com o meio ambiente com a reunião sobre mudanças climáticas, em Copenhagen, o que a Petrobras tem para oferecer?
José Sérgio Gabrielli: A Petrobras tem várias atividades importantes nesta área. Tem programa de eficiência energética, pelo qual usamos menos energia para obter o mesmo resultado. Minimizamos perdas de trocas de calor, intensificamos a utilização de combustíveis com maior poder térmico, viabilizamos procedimentos que usam menos energia no processo de transformação, enfim, temos programas que são pontuais, mas importantes. Nós não podemos nem temos a pretensão de mudar a natureza atômica do produto que nós fazemos. Então vamos ter carbono, nosso hidrocarboneto tem carbono.

iG: A Petrobras tenta compensar a emissão de carbono?
Gabrielli: Na intensidade energética de nossos processos, de refinarias, plataformas, navios, transporte, prédios, podemos ser mais eficientes em termos energéticos. Isso faz com que a emissão no processo industrial seja menor. Segundo elemento importante: estamos fortemente comprometidos com a expansão do fornecimento de combustíveis não-fósseis para o mercado. Vamos ampliar nossa produção de etanol, de biodiesel. São mecanismos que levam o sistema a criar alternativas de uso de combustíveis que causam menor impacto no meio ambiente.

iG: Não estamos falando de medidas compensatórias?
Gabrielli: É claro que temos algumas medidas compensatórias, como plantar árvores ao redor de nossas refinarias, mas nossa principal estratégia não é compensatória. O problema do uso do combustível fóssil não está na produção, está no consumo. Enquanto as pessoas andarem de carro com motor a combustão e isso for importante no transporte, enquanto os combustíveis fósseis forem importantes na geração elétrica…

iG: Mas se o consumo de derivados de petróleo recua a Petrobras fatura menos…
Gabrielli: Não, porque não há nenhuma perspectiva, não há ninguém que projete no mundo uma redução absoluta no número de barris que serão consumidos. Pode haver, sim, projeção com redução relativa do consumo de petróleo. Nossa estimativa, por exemplo, é que de hoje até 2030 o petróleo vai cair de 33% para 28% da matriz energética mundial. É uma queda de 5 [pontos percentuais] na matriz energética, mas devido ao aumento de outras fontes e não pela redução da demanda por óleo. Como a demanda por energia será muito maior, serão acrescidos entre 28 milhões e 34 milhões de barris em 2030. O uso de biocombustíveis na matriz vai mais que dobrar, dos 0,4% atuais para 0,9%.

iG: Há uns dois anos, a Petrobras previa ter cerca de 40 projetos na área de etanol, com parcerias em usinas, inclusive. Mas só concretizou um…
Gabrielli: Porque é um setor difícil, faltam condições. Temos critérios econômicos, temos critérios sociais, ambientais. Não adianta entrar no etanol de qualquer maneira. Não interessa entrar em trabalho escravo ou destruindo a floresta. Queremos entrar num processo que seja sustentável, que tenha contribuição para o meio ambiente e seja também rentável. Temos hoje vários namoros em andamento. Mas não posso adiantar.

iG: Quais as tecnologias que a Petrobras vai aplicar na produção de petróleo para reduzir a queima de gás natural nas plataformas?
Gabrielli: Estamos estudando várias tecnologias. Se fizermos uma planta de Gás Líquido Flutuante (GTL), vamos transformar o gás em combustível líquido, e não haverá queima. É uma maneira. Se fizermos uma planta para recolher gás natural em pequenas quantidades, vamos comprimi-lo [para transportá-lo e evitar a queima].

iG: Hoje o gás é queimado na plataforma porque não tem para onde ir?
Gabrielli: Sim, há várias áreas geradoras de gás que não têm escala para viabillizar gasodutos ou terminais.

iG: E o Gás Natural Liquefeito (GNL), que vai ser testado no pré-sal, não seria uma alternativa para evitar a queima também na Bacia de Campos?
Gabrielli: O GNL serve para projetos maiores, com grandes quantidades de gás. A tecnologia do GNL comprime o gás em 600 vezes, enquanto o GNC (Gás Natural Comprimido) comprime muito menos, 30 ou 40 vezes. Não chega a liquefazer o gás. Temos que ter alternativas que utilizem pequenas quantidades de gás. O GTL e o GNC são as alternativas.

iG: Outra questão relacionada a este tema ambiental é o reenvio do gás carbônico dos reservatórios aos poços do pré-sal como maneira de evitar poluição.
Gabrielli: No pré-sal vamos reinjetar todo o CO2 gerado. Não vamos ventilar nenhum CO2.

iG: Especialistas dizem que as áreas do pré-sal possuem até 20 vezes mais gás carbônico que os demais campos.
Gabrielli: Sabemos que pode haver muito CO2, mas não temos certeza. Os reservatórios do pré-sal têm múltiplas camadas. O comportamento de cada um dos campos, cada um dos poços, se diferencia. Não podemos generalizar. Claro que vai ser mais econômico se tiver grande concentração em determinado ponto, tira-se de um ponto e coloca-se em outro. Se houver dispersão [do gás carbônico], também vamos injetar, mas vai ser menos econômico.

iG: Como andam as negociações com a PDVSA (a estatal venezuelana) para que ela efetivamente coloque recursos no projeto da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco?
Gabrielli: Normais, como em toda negociação de formação de empresas. É preciso definir os critérios, os detalhamentos dos processos de financiamento.

iG: O senhor disse que seria quebra de contrato mexer na participação de royalties que as empresas pagam na produção de áreas já licitadas. E quanto aos estados, não seria também quebra de contrato alterar a parcela do que é recebido pelos estados?
Gabrielli: Eu disse que manter os 10% de royalties não quebra contrato. Se alterar os 10%, aí sim, tem quebra de contrato. Alterar a distribuição dos 10% não quebra contrato.


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