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Concurso premia trabalhos de estudantes sobre escravidão

Foram escolhidos 28 poemas e desenhos de estudantes da rede pública de Marabá (PA). Para elaborar trabalhos, participantes estudaram e discutiram o tema do trabalho escravo contemporâneo junto com outros alunos e professores

Poemas e desenhos de estudantes de Marabá (PA) que participaram do concurso "Educar para não escravizar" serão reunidos numa cartilha didática para estudos e discussões sobre o trabalho escravo contemporâneo. Ao todo, foram selecionados 28 trabalhos feitos por alunos de Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos do município. A premiação foi realizada na festa de encerramento do concurso, na última sexta-feira (30). 

A iniciativa envolveu 21 escolas municipais e estaduais. Os desenhos, fotografias, textos, danças, jogral e um vídeo elaborado por estudantes e professores foram expostas na Praça Duque de Caxias, na Velha Marabá, durante o evento de conclusão do concurso. As produções que despontaram (veja e leia) serão reunidas em duas mil publicações voltadas para escolas e para novas formações populares de conscientização contra o trabalho escravo.

 
Desenho feito por Lucas Barbosa de Oliveira, de 11 anos, da Escola Pedro Valle (Foto: Reprodução)

A seleção dos desenhos e poemas vencedores levou em conta a qualidade da mensagem e da informação transmitida sobre o tema da escravidão. O conteúdo final evidenciou como aspectos de degradância e coerção por meio da violência, além da dívida utilizada para cercear a liberdade dos trabalhadores, foram apreendidos pelos estudantes de diversas formas.

Em muitos dos trabalhos, o desmatamento apareceu como fator associado ao uso da mão de obra escrava. Outra referência comum foi a das carvoarias, empreendimentos de pequeno porte envolvidos em inúmeros casos de escravidão que estão muito presentes na região de Marabá (PA), que concentra siderúrgicas que consomem carvão vegetal como matéria-prima.

Para o senador José Nery (PSOL-PA), que esteve presente no evento de encerramento, o concurso com estudantes contribuiu para "tornar mais claro para a sociedade o conceito de trabalho escravo".

Marcos Antonio Silva dos Santos, 14 anos, foi um dos premiados pelo concurso (Foto: Reprodução)

Os alunos premiados foram contemplados com livros paradidáticos e pen drive. As escolas receberam máquinas fotográficas digitais. O Ministério Público do Trabalho (MPT) disponibilizou recursos para compra dos prêmios.

Histórico
Desde 2007, educadores de Marabá (PA) vêm participando de formações do programa "Escravo, nem pensar!" para que multipliquem informações sobre trabalho escravo e temas relacionados em suas comunidades (confira como foram as atividades do I Encontro Nacional do "Escravo, Nem Pensar!", ocasião em que foi formada uma rede de agentes sociais de combate à escravidão contemporânea).

O concurso realizado neste ano pela Repórter Brasil, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Secretaria Municipal de Educação e 4ª Unidade Regional de Ensino visou incentivar a discussão do tema nas escolas da região.

Confira desenhos e poemas premiados pelo concurso

Leia trechos dos poemas selecionados:

"Memórias de um trabalhador que não sabe ler"
Tamyres Silva de Jesus, 16 anos, 2º ano do Ensino Médio
Escola Dr. Geraldo M. C. Veloso

Seu senhor já não usa mais o açoite
Ou o laço que usava para castigar
Seu senhor perdeu o chicote
Que outrora usava para dominar

Usando lista de empregos e salário
Ganhou a habilidade de um persuasor
Gerou atrativos e recompensas
E iludiu o indigente trabalhador

De sol a sol
Da cana ao pó

(…)

Preces soltas entre o céu e a terra
Que aflição aguda sente no peito
Chorará por ele a cana que cultiva
Quando já esgotado sumiu em seu leito?

"Aprender a lição"
de Gabriel Joaquim Romão, 42 anos, 4ª etapa, Educação de Jovens e Adultos
Escola Silvino Santis

(…)

Terminam presos no laço
De jagunços do patrão
O pobre vive sofrendo
Para cumprir sua missão
Viaja sem ter destino
Vai pela informação
Só topa trabalho duro
Sem ter remuneração

Essa história se confirma
Com grande repercussão
No norte deste país
Por ser uma região
Muito rica em minérios
Em pecuária e extração

Porém é tanta riqueza
Com má distribuição.
Enquanto o pobre trabalha
Para defender o pão
Os donos só querem tirar
Vantagem da situação.

"Realidade degradante"
Sherlyane Lima Lacerda, 13 anos, 8º ano de Ensino Fundamental
Escola Jonathas Ponthes Athias

(…)

Mas está todo endividado
Sem poder sair de lá
Daquele chiqueiro de porcos
Que o puseram para descansar.

E quando chega a noite
Ele ainda está a trabalhar
Sendo violentado por gatos
Nunca consegue descansar.


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