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Máfia já matou 10 brasileiras este ano

A atuação da organização criminosa responsável pelo assassinato de uma garota de programa goiana, em março deste ano no Distrito Federal, se revela maior do que parecia até agora. Além das conhecidas bases montadas em cidades da Espanha, informações levantadas com exclusividade pelo Correio apontam para ramificações em países de pelo menos três continentes. Os dados, obtidos com pessoas de fora do Brasil, indicam que os aliciadores ligados aos principais nomes do grupo são do Leste Europeu, África e América do Sul. Agem principalmente nos países de origem. A diversidade nos biotipos das meninas convencidas a vender o corpo em prostíbulos espanhóis mostra a preocupação dos donos do negócio em agradar aos clientes. "São mulheres para todos os gostos: negras, louras, morenas, encorpadas e mais magras, todas capazes de encantar qualquer tipo de homem que procura a prostituição", afirmou uma fonte ouvida pela reportagem, que preferiu o anonimato. As autoridades espanholas identificaram, por exemplo, pelo menos 36 pessoas envolvidas no grupo, entre agenciadores, aliciadores e prostitutas. O número varia quase semanalmente, pois a maioria dos integrantes é de garotas de programa. A exploração, em regime de escravidão, faz com que muitas não suportem a rotina imposta pelos traficantes de mulheres. Grande parte tenta fugir dos cabarés ou acabam assassinadas. Foi o caso da goiana Letícia Peres Mourão, 31 anos. Morreu ao denunciar o esquema de prostituição montado pela quadrilha de Miguel Arufe Martinez, o Antonio. Prestou informações à polícia e à Justiça da Espanha, mas morreu três meses antes de se apresentar outra vez ao Judiciário espanhol. O crime ocorreu em março deste ano. Investigação realizada pela 4ª DP (Guará) descobriu que a ordem para matá-la saiu da Espanha. A organização criminosa que explorava a ex-prostituta acionou contatos no Brasil e, assim, acertou a queima de arquivo. Lúcio Flávio Barbosa, o homem acusado de matá-la em um bar do Setor Habitacional Lucio Costa, está preso desde julho. O responsável por arquitetar e planejar a execução, identificado como Clênio Otacílio da Silva, se encontra foragido. Além das denúncias feitas por Letícia, a própria história dela como garota de programa na Espanha revela a influência das máfias de exploração sexual no mundo. A mulher passou oito anos em território espanhol, entre as cidades de Tarragona, Vilanova Y La Geltrú e Barcelona. Conheceu Antonio por intermédio de aliciadoras brasileiras. Algumas ficam na Espanha e outras voltam ao Brasil para convencer mais mulheres a viver da prostituição na Europa. O esquema se repete em países africanos e do Leste Europeu. EscravidãoNo caso de Letícia, o horror vivido como garota de programa na Espanha teve início ao conhecer a organização de Antonio. Em depoimento dado à polícia federal espanhola, em Tarragona, a 100km de Barcelona, a mulher descreveu a rotina de escravidão em um dos prostíbulos do grupo – são seis, no total. As declarações, prestadas em 15 de novembro de 2005 e confirmadas à Justiça em 7 de abril de 2006, revelam relações sexuais de quase 20 horas diárias, com direito a quatro ou cinco horas de descanso. Recebia multas por atraso, cochilo ou rejeição de parceiro sexual. A goiana aceitou passar 21 dias no cabaré da Calle Gasometro, 38-2, em Tarragona – o local usa como fachada a ONG Andando Sin Fronteras. Aguentou 10. A carga de trabalho a obrigava a fazer cerca de 44 programas por dia. Cobrava até 40 euros (cerca de R$ 100) por relação de 30 minutos. Metade ficava com ela. A outra, para os donos da casa. Além de revelar a exploração sexual e fornecer nomes e endereços, Letícia denunciou o patrão por trabalho escravo e entrou na […]

A atuação da organização criminosa responsável pelo assassinato de uma garota de programa goiana, em março deste ano no Distrito Federal, se revela maior do que parecia até agora. Além das conhecidas bases montadas em cidades da Espanha, informações levantadas com exclusividade pelo Correio apontam para ramificações em países de pelo menos três continentes. Os dados, obtidos com pessoas de fora do Brasil, indicam que os aliciadores ligados aos principais nomes do grupo são do Leste Europeu, África e América do Sul. Agem principalmente nos países de origem.

A diversidade nos biotipos das meninas convencidas a vender o corpo em prostíbulos espanhóis mostra a preocupação dos donos do negócio em agradar aos clientes. "São mulheres para todos os gostos: negras, louras, morenas, encorpadas e mais magras, todas capazes de encantar qualquer tipo de homem que procura a prostituição", afirmou uma fonte ouvida pela reportagem, que preferiu o anonimato. As autoridades espanholas identificaram, por exemplo, pelo menos 36 pessoas envolvidas no grupo, entre agenciadores, aliciadores e prostitutas.

O número varia quase semanalmente, pois a maioria dos integrantes é de garotas de programa. A exploração, em regime de escravidão, faz com que muitas não suportem a rotina imposta pelos traficantes de mulheres. Grande parte tenta fugir dos cabarés ou acabam assassinadas. Foi o caso da goiana Letícia Peres Mourão, 31 anos. Morreu ao denunciar o esquema de prostituição montado pela quadrilha de Miguel Arufe Martinez, o Antonio. Prestou informações à polícia e à Justiça da Espanha, mas morreu três meses antes de se apresentar outra vez ao Judiciário espanhol.

O crime ocorreu em março deste ano. Investigação realizada pela 4ª DP (Guará) descobriu que a ordem para matá-la saiu da Espanha. A organização criminosa que explorava a ex-prostituta acionou contatos no Brasil e, assim, acertou a queima de arquivo. Lúcio Flávio Barbosa, o homem acusado de matá-la em um bar do Setor Habitacional Lucio Costa, está preso desde julho. O responsável por arquitetar e planejar a execução, identificado como Clênio Otacílio da Silva, se encontra foragido.

Além das denúncias feitas por Letícia, a própria história dela como garota de programa na Espanha revela a influência das máfias de exploração sexual no mundo. A mulher passou oito anos em território espanhol, entre as cidades de Tarragona, Vilanova Y La Geltrú e Barcelona. Conheceu Antonio por intermédio de aliciadoras brasileiras. Algumas ficam na Espanha e outras voltam ao Brasil para convencer mais mulheres a viver da prostituição na Europa. O esquema se repete em países africanos e do Leste Europeu.

Escravidão
No caso de Letícia, o horror vivido como garota de programa na Espanha teve início ao conhecer a organização de Antonio. Em depoimento dado à polícia federal espanhola, em Tarragona, a 100km de Barcelona, a mulher descreveu a rotina de escravidão em um dos prostíbulos do grupo – são seis, no total. As declarações, prestadas em 15 de novembro de 2005 e confirmadas à Justiça em 7 de abril de 2006, revelam relações sexuais de quase 20 horas diárias, com direito a quatro ou cinco horas de descanso. Recebia multas por atraso, cochilo ou rejeição de parceiro sexual.

A goiana aceitou passar 21 dias no cabaré da Calle Gasometro, 38-2, em Tarragona – o local usa como fachada a ONG Andando Sin Fronteras. Aguentou 10. A carga de trabalho a obrigava a fazer cerca de 44 programas por dia. Cobrava até 40 euros (cerca de R$ 100) por relação de 30 minutos. Metade ficava com ela. A outra, para os donos da casa. Além de revelar a exploração sexual e fornecer nomes e endereços, Letícia denunciou o patrão por trabalho escravo e entrou na Justiça para exigir indenização por danos morais.

A investigação sobre a quadrilha espanhola de prostituição internacional está por conta da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Cópia do inquérito da 4ª DP também seguirá para o Ministério da Justiça brasileiro, que o encaminhará à Justiça da Espanha. O secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, participa nas últimas semanas em reuniões fora do país sobre o tema. Passou por Bélgica e Israel. O órgão se concentra em campanhas educativas, repressão e capacitação de profissionais.

Em 2009, 10 brasileiras assassinadas
O tamanho, a organização e a influência do grupo responsável pela morte de Letícia Peres Mourão surpreenderam o chefe da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Estado de Goiás, Elie Chidiac (1). "É preocupante saber que eles matam aqui dentro do Brasil, como ocorreu com essa moça goiana. O que é preciso fazer é fortalecer o Itamaraty (Ministério das Relações
Exteriores) aqui dentro e lá fora para proteger o emigrante brasileiro", defendeu.

Dados levantados pela entidade goiana revelam que 12 brasileiras perderam a vida em 2009 por conta de organizações criminosas especializadas em tráfico de seres humanos. Parte das mortes ocorreu na Espanha e nos Estados Unidos. Dez foram assassinadas. Duas mortes se deram por causas naturais, mas em consequência da rotina de escravidão imposta a quem escolhe arriscar a vida a partir da venda do corpo. A média anual alcança 20 brasileiras mortas no exterior por conta dos abusos sexuais.

As vítimas são mulheres que deixam para trás a família e os amigos em busca de dinheiro e sucesso. A maioria é de Goiás. A estimativa é de que haja cerca de 250 mil goianos fora do Brasil. A maior parte vive da prostituição. O problema se tornou tão recorrente no estado que o Ministério Público Federal de Goiás (MPF-GO) traçou o perfil das exploradas e dos aliciadores. Têm entre 18 e 26 anos e não passaram do ensino fundamental. São de famílias de baixa renda e desembarcam endividadas com os patrões.

Órgãos federais e estaduais também sabem que aliciadores de outros 10 países – Portugal, França, Suíça, Irlanda, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Israel e Estados Unidos – têm influência dentro do Brasil. Estão no país para convencer novas vítimas a se mudarem para a Europa. Fazem promessas de lucro fácil e boas condições de vida. Quem acredita no discurso descobre a dificuldade ao chegar ao destino. O MPF-GO atuou na condenação de 20 pessoas por exploração sexual no exterior desde 2004.

(1) Iniciativa
O órgão goiano, criado em 2000 por Elie Chidiac, presta assistência aos familiares e às vítimas de prostituição no exterior. O combate passa por três pilares: repressão, assistência e conscientização. Trabalha em parceria com a Polícia Federal e o Ministério Público.


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