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Trabalhadores ainda vivem em condições difíceis e são mal remunerados

O cortador de cana José Marques de Souza, de 39 anos, chega ao alojamento da usina tão extenuado, no fim da tarde, que recusa o convite dos companheiros para fazer o que mais gosta: jogar uma "pelada" no campo de terra. "A gente fica tão pregado que não consegue tirar o pé do chão." Das 6 da manhã até as 16 horas, quando retorna para o alojamento que divide com 400 colegas, o maranhense de Timbiras calcula que derrubou umas dez toneladas de cana. Ele não reclama de pegar pesado dia após dia nos canaviais de Matão, na região de Ribeirão Preto. "O problema é chegar no fim do mês com pouco dinheiro." Souza trabalha para um grande grupo usineiro, mas não tem o controle da sua produção. "Tem dia que eles pagam R$ 0,30 o metro, já no outro dia, sem dar explicação, baixam para R$ 0,18." No mês passado, ele recebeu R$ 720. Seu plano era levar R$ 10 mil no final da safra para a família que ficou no Maranhão, mas ele já se contenta com R$ 5 mil. "Ano que vem não volto." O governo tem um longo caminho a percorrer para pôr em prática a proposta de melhorar as condições dos trabalhadores nos canaviais e apagar a má imagem do etanol brasileiro no exterior. Na cadeia produtiva da cana, a mais importante do agronegócio, o trabalhador braçal é, de longe, o elo mais frágil. Esta semana, a reportagem flagrou cortadores sem equipamentos básicos de proteção em canaviais da região de Ribeirão Preto, uma das mais ricas do País e justamente a que mais avançou no respeito aos direitos desses trabalhadores. O cortador Vagner Celso Mogini, de 46 anos, fazia o corte da cana bruta, em Ibaté, sem luvas, perneiras e proteção para os olhos, obrigatórios por lei. Sob sol forte, tinha a cabeça e os braços descobertos. "O perigo são as cobras, pois a cana não foi queimada", diz. Ele foi contratado com carteira assinada e salário-base de R$ 500 por um produtor independente. A reportagem ainda encontrou outros cortadores com equipamentos incompletos em Matão, Araraquara e Guariba. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guariba, Wilson Rodrigues da Silva, a situação de trabalho melhorou, mas os salários continuam "vergonhosos". Um trabalhador bom chega a tirar em média R$ 950 mensais, mas só tem trabalho oito meses no ano e a média mensal acaba caindo. Por causa da crise, algumas usinas atrasam os pagamentos. Duas delas ainda não pagaram integralmente o FGTS de 2008. As usinas alegam que, se derem aumento, terão de fazer cortes, diz o sindicalista. "Apesar da crise, foi o setor que mais enriqueceu nos últimos anos." José Maria Tomazela, GUARIBA

O cortador de cana José Marques de Souza, de 39 anos, chega ao alojamento da usina tão extenuado, no fim da tarde, que recusa o convite dos companheiros para fazer o que mais gosta: jogar uma "pelada" no campo de terra. "A gente fica tão pregado que não consegue tirar o pé do chão."

Das 6 da manhã até as 16 horas, quando retorna para o alojamento que divide com 400 colegas, o maranhense de Timbiras calcula que derrubou umas dez toneladas de cana. Ele não reclama de pegar pesado dia após dia nos canaviais de Matão, na região de Ribeirão Preto. "O problema é chegar no fim do mês com pouco dinheiro."

Souza trabalha para um grande grupo usineiro, mas não tem o controle da sua produção. "Tem dia que eles pagam R$ 0,30 o metro, já no outro dia, sem dar explicação, baixam para R$ 0,18." No mês passado, ele recebeu R$ 720. Seu plano era levar R$ 10 mil no final da safra para a família que ficou no Maranhão, mas ele já se contenta com R$ 5 mil. "Ano que vem não volto."

O governo tem um longo caminho a percorrer para pôr em prática a proposta de melhorar as condições dos trabalhadores nos canaviais e apagar a má imagem do etanol brasileiro no exterior. Na cadeia produtiva da cana, a mais importante do agronegócio, o trabalhador braçal é, de longe, o elo mais frágil. Esta semana, a reportagem flagrou cortadores sem equipamentos básicos de proteção em canaviais da região de Ribeirão Preto, uma das mais ricas do País e justamente a que mais avançou no respeito aos direitos desses trabalhadores.

O cortador Vagner Celso Mogini, de 46 anos, fazia o corte da cana bruta, em Ibaté, sem luvas, perneiras e proteção para os olhos, obrigatórios por lei. Sob sol forte, tinha a cabeça e os braços descobertos. "O perigo são as cobras, pois a cana não foi queimada", diz. Ele foi contratado com carteira assinada e salário-base de R$ 500 por um produtor independente. A reportagem ainda encontrou outros cortadores com equipamentos incompletos em Matão, Araraquara e Guariba.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guariba, Wilson Rodrigues da Silva, a situação de trabalho melhorou, mas os salários continuam "vergonhosos". Um trabalhador bom chega a tirar em média R$ 950 mensais, mas só tem trabalho oito meses no ano e a média mensal acaba caindo. Por causa da crise, algumas usinas atrasam os pagamentos. Duas delas ainda não pagaram integralmente o FGTS de 2008.

As usinas alegam que, se derem aumento, terão de fazer cortes, diz o sindicalista. "Apesar da crise, foi o setor que mais enriqueceu nos últimos anos."

José Maria Tomazela, GUARIBA


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