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O seu bife vem daqui

Domingo de sol, família reunida. Diante da churrasqueira, à espera do ponto ideal da picanha, é improvável que alguém pare e pergunte de onde teria vindo aquele pedaço de carne. "Do supermercado da esquina" seria a resposta mais rápida. "Do frigorífico" seria outra, mais elaborada. Mas e antes? E quando esse bife ainda era parte de um boi inteiro, vivo, andando por um pasto? Você já se perguntou como terá sido o processo até ele chegar à sua mesa? Sem querer estragar seu almoço, a maneira como é produzida a carne que comemos – e tudo o que se consome em qualquer lugar do mundo – merece um pouco mais de nossa atenção. Ela tem relação com as questões socioambientais que o mundo se vê obrigado a enfrentar hoje para garantir seu futuro. A carne brasileira é um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia, segundo um estudo de 2008 que dimensiona a rede complexa que une nossos hábitos do dia a dia à destruição da maior área contínua de floresta tropical do mundo. Intitulado "Conexões sustentáveis São Paulo – Amazônia: Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?", o trabalho, elaborado por jornalistas das ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação, verifica os impactos ambientais e sociais causados pelo avanço da agropecuária, do extrativismo, das plantações de soja e até dos financiamentos públicos e privados sobre a floresta. A pesquisa foi divulgada durante o seminário "Conexões sustentáveis: São Paulo – Amazônia", uma iniciativa do Fórum Amazônia Sustentável e do Movimento Nossa São Paulo. O evento reuniu dezenas de lideranças locais e nacionais para debater as relações de interdependência entre São Paulo e a Amazônia. A escolha da cidade como fio condutor da pesquisa se deu porque é ela o maior centro consumidor e distribuidor de produtos da Amazônia – e porque até o regime de chuvas da cidade tem ligação com a preservação da floresta. "A Amazônia tem papel fundamental na concentração de nuvens de chuva em São Paulo. A chuva começa a se formar no Atlântico, se adensa sobre a floresta tropical e, ao esbarrar nos Andes, retorna e cai em São Paulo", afirma Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA). Poder de compraAs investigações tiveram como limite geográfico a região da bacia do rio Xingu, área entre os estados do Mato Grosso e Pará com 51 milhões de hectares e mais da metade do território protegido por terras indígenas e áreas de preservação. A partir dos setores-chave da economia local – madeira, grãos, carne e financiamento -, o grupo investigou os processos de comercialização que têm em suas bases situações ilegais, como atuação em área embargada, promoção do desmatamento ou mesmo o relacionamento com fornecedores que atuam de maneira ilegal e com uso de trabalho escravo. O relatório aponta os estudos de casos de empresas presentes na região que têm problemas como esses, mas um dos coordenadores do trabalho, Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, diz que o objetivo não é apontar culpados. "São apenas exemplos. O importante é acompanhar o que as empresas fazem a partir da denúncia: há as que vão procurar resolver esses problemas e há as que dão de ombros, se recusam a discutir." Seu parceiro na coordenação do projeto, Marques Casara, da Papel Social, reforça a posição do consumidor nessa história. Apesar de estar na ponta final da cadeia, quem compra tem poder de provocar mudanças. "O consumidor pode usar seu poder de compra para pressionar a rede de varejo a adquirir apenas produtos de fornecedores que tenham cadeia produtiva legal." São opiniões que vão ao encontro de Beto Veríssimo, do Instituto do […]

Domingo de sol, família reunida. Diante da churrasqueira, à espera do ponto ideal da picanha, é improvável que alguém pare e pergunte de onde teria vindo aquele pedaço de carne. "Do supermercado da esquina" seria a resposta mais rápida. "Do frigorífico" seria outra, mais elaborada. Mas e antes? E quando esse bife ainda era parte de um boi inteiro, vivo, andando por um pasto? Você já se perguntou como terá sido o processo até ele chegar à sua mesa? Sem querer estragar seu almoço, a maneira como é produzida a carne que comemos – e tudo o que se consome em qualquer lugar do mundo – merece um pouco mais de nossa atenção. Ela tem relação com as questões socioambientais que o mundo se vê obrigado a enfrentar hoje para garantir seu futuro.

A carne brasileira é um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia, segundo um estudo de 2008 que dimensiona a rede complexa que une nossos hábitos do dia a dia à destruição da maior área contínua de floresta tropical do mundo. Intitulado "Conexões sustentáveis São Paulo – Amazônia: Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?", o trabalho, elaborado por jornalistas das ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação, verifica os impactos ambientais e sociais causados pelo avanço da agropecuária, do extrativismo, das plantações de soja e até dos financiamentos públicos e privados sobre a floresta.

A pesquisa foi divulgada durante o seminário "Conexões sustentáveis: São Paulo – Amazônia", uma iniciativa do Fórum Amazônia Sustentável e do Movimento Nossa São Paulo. O evento reuniu dezenas de lideranças locais e nacionais para debater as relações de interdependência entre São Paulo e a Amazônia. A escolha da cidade como fio condutor da pesquisa se deu porque é ela o maior centro consumidor e distribuidor de produtos da Amazônia – e porque até o regime de chuvas da cidade tem ligação com a preservação da floresta. "A Amazônia tem papel fundamental na concentração de nuvens de chuva em São Paulo. A chuva começa a se formar no Atlântico, se adensa sobre a floresta tropical e, ao esbarrar nos Andes, retorna e cai em São Paulo", afirma Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA).

Poder de compra
As investigações tiveram como limite geográfico a região da bacia do rio Xingu, área entre os estados do Mato Grosso e Pará com 51 milhões de hectares e mais da metade do território protegido por terras indígenas e áreas de preservação. A partir dos setores-chave da economia local – madeira, grãos, carne e financiamento -, o grupo investigou os processos de comercialização que têm em suas bases situações ilegais, como atuação em área embargada, promoção do desmatamento ou mesmo o relacionamento com fornecedores que atuam de maneira ilegal e com uso de trabalho escravo. O relatório aponta os estudos de casos de empresas presentes na região que têm problemas como esses, mas um dos coordenadores do trabalho, Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, diz que o objetivo não é apontar culpados. "São apenas exemplos. O importante é acompanhar o que as empresas fazem a partir da denúncia: há as que vão procurar resolver esses problemas e há as que dão de ombros, se recusam a discutir."

Seu parceiro na coordenação do projeto, Marques Casara, da Papel Social, reforça a posição do consumidor nessa história. Apesar de estar na ponta final da cadeia, quem compra tem poder de provocar mudanças. "O consumidor pode usar seu poder de compra para pressionar a rede de varejo a adquirir apenas produtos de fornecedores que tenham cadeia produtiva legal." São opiniões que vão ao encontro de Beto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que ressalta a importância de envolver o mercado na luta por um avanço nas políticas públicas. "Sem regularização fundiária, que só o governo pode fazer, não haverá bons negócios na Amazônia." Bom negócio na Amazônia, completa Veríssimo, é fazer pecuária em áreas já desmatadas sem avançar mais sobre a floresta, fazer mineração em áreas determinadas, manejo para exploração e saída dos produtos da floresta, respeito à natureza. "Já há empresas compromissadas com a sustentabilidade. As grandes mineradoras na Amazônia estão buscando uma exploração mais cuidadosa, que dialogue mais com o século 21."

É mais barato derrubar
Para pôr um freio no ritmo de destruição, o consumidor não precisa abrir mão de comer carne, comprar móveis ou usar óleo de soja. Basta riscar da lista de compras aquelas marcas que insistem em violar princípios éticos e de responsabilidade. Nesse sentido, é útil acompanhar o levantamento que o relatório faz de cada setor produtivo na Amazônia, a começar pela pecuária. O Brasil é o maior exportador mundial de carne. É um mercado que não para de crescer – e, para atendê-lo, cresce também o número de rebanhos: de 2000 para cá, o número de cabeças de gado foi de 170 milhões para 206 milhões no país – 74 milhões delas estão na Amazônia, onde há mais boi do que gente. O grande problema desse crescimento é que ele se tornou o principal vetor para a derrubada da matas. A estimativa é de que 78% do desmatamento na Amazônia tenha sido motivado pela pecuária .

São Félix do Xingu, cidade no sul do Pará, aparece no relatório como caso emblemático para ilustrar a expansão pecuária na Amazônia: em 1997, as fazendas desse município de 84 mil quilômetros quadrados comportavam menos de 30 mil cabeças, de acordo com o Sindicato dos Produtores Rurais (SPR) do município. Em dez anos, o contingente passou para 1,7 milhão de animais. No Mato Grosso, os números também impressionam. De acordo com um diagnóstico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2007 havia 39 frigoríficos funcionando em 24 municípios, somando uma capacidade de abate de 22 mil cabeças por dia. O mesmo estudo identifica seis unidades em processo de ampliação e nove plantas em construção – o que deve dobrar o número de abates.

Além de combater as diversas irregularidades encontradas nessas áreas, é fundamental deter a expansão dessas pastagens. Não se trata de impedir o crescimento do setor, mas aumentar a produtividade das áreas já desmatadas: os especialistas dizem que seria possível criar ao menos três vezes mais gado nessas terras com o uso de tecnologias simples. Por que, então, a derrubada continua? Porque, em curto prazo, é mais barato invadir uma nova área florestal e transformá-la em pasto do que investir na produtividade das áreas já usadas. Em longo prazo, no entanto, é o que se sabe: as conseqüências dessa escolha serão desastrosas.

Madeira "esquentada"
A extração da madeira também ganha análise detalhada no estudo, já que 23% do que é tirado da floresta é consumido em São Paulo. São cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de madeira amazônica abastecendo a cidade. Para tentar restringir o fluxo de produção ilegal, autoridades paulistas já adotaram medidas. Em sua gestão, a ex-prefeita Marta Suplicy baixou portarias impedindo a compra de mogno. E em 2005 o então governador Geraldo Alckmin e o ex-prefeito José Serra assinaram decretos estaduais e municipais com o objetivo de assegurar a procedência legal desses materiais, exigindo que tenham origem de áreas de desmatamento autorizado.

Mesmo assim, de acordo com a pesquisa, empresas criminosas escapam do crivo dos órgãos públicos por meio de vários mecanismos que "esquentam" a madeira ilegal. Isso acontece, por exemplo, quando madeireiros conseguem que um Plano de Manejo Florestal Sustentável seja aprovado, usando na verdade uma área que já foi explorada: apesar de retirar árvores de uma área qualquer, eles informam na documentação que as toras saíram da área aprovada.

A cadeia de produção da soja é outra que foi rastreada pela pesquisa. Apesar de a expansão do grão ter se dado principalmente no Cerrado, o aumento da demanda no mercado internacional impulsionou uma maior penetração da cultura na Amazônia. Em muitas áreas, ela tornou-se motivação direta de queimadas e desmatamentos para a conversão em lavoura. Além das conseqüências ambientais, esse avanço traz conseqüências para povos indígenas, comunidades tradicionais e assentados. Dos 19 municípios apontados pelo governo federal como principais focos de desmate no Mato Grosso, seis se localizam em áreas parcialmente integradas à área de proteção.

Desmatamento zero
Um último aspecto analisado pelo relatório "Conexões sustentáveis" é o financiamento de todas essas atividades. O estudo mostra como, desde a ditadura militar, generosos investimentos de instituições públicas e privadas vêm bancando as atividades produtivas na floresta, sem que se levassem em conta os impactos socioambientais dos empreendimentos.

O resultado é que, agora, o governo se vê forçado a criar mecanismos para conter a devastação. Ou seja, apagar incêndios que o próprio governo, anos atrás, ajudou a criar. Um desses mecanismos é a Resolução 3.545 do Conselho Monetário Nacional, que, ao condicionar recursos para custear a produção à regularidade do registro fundiário das fazendas e a licenças ambientais, fez com que financiamentos públicos despencassem até 15%. Por outro lado, a procura de produtores para regularizar a situação de suas terras teria aumentado em 60%, de acordo com projeção do ministro Minc.

O ministro aponta os desafios a serem enfrentados na região: "Queremos desmatamento ilegal zero e isso não se consegue apenas com Ibama e Polícia Federal. Você fecha uma serraria ilegal em uma hora, mas não substitui 50 empregos em uma hora. Tem que haver um novo modelo de sustentabilidade". Apesar do tamanho do problema, ele se diz otimista com o futuro da Amazônia, citando o lançamento de 40 planos de manejos para reservas extrativistas em novembro, entre outras medidas que devem se beneficiar do recém-lançado Fundo Amazônia. Se bem usados, os recursos talvez possam frear a devastação que consome a floresta. E evitar que o churrasco de cada dia não cause indigestão em nossas consciências. (Colaborou Natalia Viana)

Por Micheline Alves e Natália Viana


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