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Movimentos cobram mais ação de Chavez, Evo, Lugo e Correa

João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aos presidentes da Venezuela, Bolívia, Paraguai e Equador: "Esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital"

Belém – Pela primeira vez na história do Fórum Social Mundial, o já tradicional diálogo dos movimentos sociais com chefes de estado, que nas edições anteriores de Porto Alegre e Caracas se resumiram ao presidente venezuelano Hugo Chávez, reuniu, nesta quinta (29), quatro mandatários – Hugo Chavez, Evo Morales, da Bolívia, Fernando Lugo, do Paraguai, e Rafael Correa, do Equador – no ginásio esportivo do campus da Universidade Estadual do Pará em um evento sobre integração popular na América Latina.

Coordenado pelo MST, o encontro não incluiu o presidente Lula porque, em princípio, o tema seria a Alternativa Bolivariana para as Américas (proposta alternativa de integração da região puxada pela Venezuela) da qual o Brasil não faz parte. Mas tanto Lula quanto Cristina Kirchner foram citados por João Pedro Stedile, membro da direção nacional do MST, como governos progressistas que fazem parte de um movimento histórico da América Latina de rompimento com o neoliberalismo na região.

Primeiro a chegar ao evento, Correa, o menos envolvido historicamente com os movimentos sociais latinoamericanos, aproveitou o tempo de atraso de Chávez para dar provas de um talento artístico até então pouco conhecido. Todo sorrisos ao microfone, cantou acompanhado de músicos cubanos e levantou a platéia, numa demonstração de descontração neste meio não tão familiar.

Apesar da forte cordialidade que marcou o evento, os quatro mandatários também ouviram cobranças. De acordo com a economista equatoriana Magdalena Leon, coordenadora da Rede Latinoamericana de Mulheres Transformando a Economia (Remte), é preciso avançar nas atuações conjuntas tanto entre os países quanto na relação dos governos com a sociedade. Para isso, é necessário avançar nas mudanças do modelo de desenvolvimento, posto em xeque pela crise, uma vez que a "situação é radical e exige ações radicais". Além da Alba e do Tratados de Cooperação dos Povos (TCPs, alternativos aos Tratados de Livre Comércio – TLCs), seria necessário construir outros princípios de relação entre governos e sociedade, uma vez que a crise gerou outro nível de demanda à integração alternativa.

Entre as prioridades de ação, Magdalena citou uma nova cúpula das Américas que consolide uma agenda própria da América Latina, uma nova arquitetura para a soberania econômica, energética, estrutural e política da região, e um novo protagonismo mundial diante de temas polêmicos, como as agressões israelenses na Palestina.

Focando seus discursos na crise e nas já logradas mudanças de prática política em seus respectivos Estados, os quatro mandatários buscaram reforçar ações que estriam nas agendas dos movimentos como forma de comprovar os esforços de diálogo e participação social. Primeiro a falar, Correa afirmou que a região se tornou uma "vítima de uma crise da qual não somos culpados, uma vez que é uma crise do capitalismo", e reforçou a idéia de construção de um novo "socialismo do século 21", baseado em ações coletivas para resolver problemas comuns. Do ponto de vista econômico, o presidente equatoriano defendeu um novo planejamento comum das sinergias, uma vez que até hoje o planejamento foi importo pelos países do Norte e pelas empresas transnacionais. "Não tem sentido discutirmos nossos problemas em Washington", afirmou, numa menção à constituição da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Ainda sobre o novo modelo de socialismo para a América Latina, Correa destacou a necessidade de mudanças nas relações com o meio ambiente e a exploração dos recursos naturais, uma vez que o socialismo tradicional não questionou o capitalismo em seus fundamentos, mas buscou apenas incluir os excluídos num mundo de produção e consumo que hoje se mostra insustentável.

Mais próximo, historicamente, dos movimentos sociais, o paraguaio Fernando Lugo avaliou que a chegada dos quatro mandatários ao poder foi fruto de um longo processo de lutas e construções dos movimentos sociais da região. "As mudanças não aconteceram de repente, foram fruto de um longo processo de debate nas ruas. Por isso os governos progressistas sabem que os movimentos sociais são a força que pode garantir uma mudança contínua", afirmou. Participante histórico do FSM, Lugo concluiu dizendo que a atual situação na América Latina é prova de que "outro mundo não só é possível, mas está se tornando real".

No mesmo tom, Evo Morales, o mais aplaudido pela militância, reconheceu a importância decisiva da ação dos movimentos sociais em sua eleição. "Se há quatro presidentes aqui é graças à luta de vocês. Não quero que me convidem, mas me convoquem para seguir na luta", afirmou. E adendou: "por favor não me abandonem, nem me esqueçam".

Último a usar a palavra, Chavez fez uma fala curta e bastante coloquial na qual lembrou Fidel Castro e o processo revolucionário de Cuba, mas aproveitou para reafirmar sua posição frente aos EUA. "Oxalá Obama marque uma mudança no espectro mundial, mas não vejo grandes câmbios, o império está intacto".

Para fechar o encontro, o dirigente do MST, João Pedro Stedile, principal articulador do encontro, fez uma curta análise das forças de mobilização dos movimentos sociais, que ainda estariam bastante desarticulados, mas cobrou mais ação de todos os atores. "A luta de classes depende da força que os movimentos conseguem aglutinar, não de discursos". Em seguida, ainda em tom de brincadeira, afirmou que os "governos [presentes] são muito frouxos". "Esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital. Nas próximas cúpulas regionais, convidem os movimentos de seus países", cobrou.

Stédile também cobrou uma unidade maior em torno de um programa mínimo para derrotar a crise, como o rompimento com a dependência externa e a nacionalização dios bancos, e uma moeda regional própria. "Temos muitas identidades políticas entre estes governos, mas respeitamos nossa independência. Cada um tem sua trincheira, mas temos que construir uma unidade popular contra o neoliberalismo", concluiu o dirigente do MST.

*Verena Glass, da Repórter Brasil, especial para a Agencia Carta Maior.


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1 Comentário

  1. Maria Antonia

    O governo somos nós.

    Responder

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