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Etanol. A euforia acabou

Prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes – o setor mais badalado da economia brasileira é a nova vítima da crise financeira mundial Os produtores brasileiros de açúcar e álcool viveram uma espécie de montanha-russa nos últimos anos. Até o fim da década de 90, o setor era visto como um fiel retrato do Brasil arcaico – aquele que não respeita leis trabalhistas e vive à custa de benesses estatais. De repente, a montanha-russa começou a subir. O etanol entrou na moda no mundo todo e o setor saiu do atraso para a vanguarda do capitalismo, em sua busca por combustíveis renováveis para substituir o poluidor e finito petróleo. Grandes grupos brasileiros se capitalizaram na bolsa de valores. Investidores internacionais desembarcaram aos montes anunciando a compra e a construção de novas usinas. Entre eles estavam fundos especializados em tecnologia do Vale do Silício e o investidor George Soros. Os investimentos em novas unidades cresceram de 2,2 bilhões de reais na safra 2005/2006 para 7,2 bilhões de reais na safra 2008/2009. A expectativa era que esse número seguisse em sua trajetória ascendente nos anos seguintes. Mas a crise financeira mundial chegou, atingindo em cheio os produtores de álcool brasileiros – e a montanha-russa do setor inicia agora o que muitos temem ser uma vertiginosa descida. O principal vetor do impacto da crise é a falta de crédito. Primeiro, porque o dinheiro disponível para ampliação e construção de usinas evaporou. Dos 136 projetos de novas usinas previstos para ser implantados no Brasil até 2014, cerca de 40, ou 30%, já foram postergados ou cancelados. Dos 32,6 bilhões de reais que seriam usados na construção desses novos empreendimentos, 8,2 bilhões de reais deixarão de ser investidos. Maior fabricante de equipamentos para usinas de açúcar e etanol do país, a Dedini chegou a ter 210 projetos em consulta no final de 2007. Se virassem pedidos firmes, esses projetos criariam uma fila de espera até 2015. Hoje, apenas 50 usinas estão em análise. "Tinha muita gente embalada por um sonho", diz Sérgio Leme dos Santos, vice-presidente executivo da Dedini. "Mas a realidade não é tão cor-de-rosa assim." Além da falta de recursos para investir, há um problema mais imediato – e muito mais agudo. Os bancos estão travando o financiamento do capital de giro das usinas, o que pode sufocá-las. Localizada em Sertãozinho, no interior de São Paulo, a tradicional usina Albertina recorreu recentemente à recuperação judicial para evitar que seus credores pedissem a falência da companhia. A Albertina tem uma dívida estimada em 100 milhões de dólares, mais de 50% com vencimento previsto para os próximos 12 meses. O grupo Naoum, de Goiás, também ingressou com um pedido de recuperação judicial para evitar a paralisação de suas três usinas – Santa Helena, Jaciara e Pantanal, que faturam mais de 300 milhões de reais por ano. Talvez a principal conseqüência da crise financeira atual seja a demonstração de que o setor tinha pouca solidez – e de que essa fraqueza era ocultada no período de abundância de recursos. Os custos de produção, por exemplo, vêm crescendo a uma velocidade preocupante. Nos últimos 18 meses, custos básicos como mão-de-obra, frete, fertilizantes e outros insumos subiram 25%. Se a demanda de açúcar e álcool viesse crescendo a um ritmo semelhante, não haveria problema: os produtores simplesmente repassariam o aumento de custos para seus compradores. Mas isso se provou impossível. Em razão dos altos investimentos dos últimos anos, o setor tem hoje um excesso de capacidade. Ou seja, produz mais que a demanda dos mercados local e internacional. Estima-se que, na safra […]

Prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes – o setor mais badalado da economia brasileira é a nova vítima da crise financeira mundial

Os produtores brasileiros de açúcar e álcool viveram uma espécie de montanha-russa nos últimos anos. Até o fim da década de 90, o setor era visto como um fiel retrato do Brasil arcaico – aquele que não respeita leis trabalhistas e vive à custa de benesses estatais. De repente, a montanha-russa começou a subir. O etanol entrou na moda no mundo todo e o setor saiu do atraso para a vanguarda do capitalismo, em sua busca por combustíveis renováveis para substituir o poluidor e finito petróleo. Grandes grupos brasileiros se capitalizaram na bolsa de valores. Investidores internacionais desembarcaram aos montes anunciando a compra e a construção de novas usinas.

Entre eles estavam fundos especializados em tecnologia do Vale do Silício e o investidor George Soros. Os investimentos em novas unidades cresceram de 2,2 bilhões de reais na safra 2005/2006 para 7,2 bilhões de reais na safra 2008/2009. A expectativa era que esse número seguisse em sua trajetória ascendente nos anos seguintes. Mas a crise financeira mundial chegou, atingindo em cheio os produtores de álcool brasileiros – e a montanha-russa do setor inicia agora o que muitos temem ser uma vertiginosa descida.

O principal vetor do impacto da crise é a falta de crédito. Primeiro, porque o dinheiro disponível para ampliação e construção de usinas evaporou. Dos 136 projetos de novas usinas previstos para ser implantados no Brasil até 2014, cerca de 40, ou 30%, já foram postergados ou cancelados. Dos 32,6 bilhões de reais que seriam usados na construção desses novos empreendimentos, 8,2 bilhões de reais deixarão de ser investidos. Maior fabricante de equipamentos para usinas de açúcar e etanol do país, a Dedini chegou a ter 210 projetos em consulta no final de 2007. Se virassem pedidos firmes, esses projetos criariam uma fila de espera até 2015.

Hoje, apenas 50 usinas estão em análise. "Tinha muita gente embalada por um sonho", diz Sérgio Leme dos Santos, vice-presidente executivo da Dedini. "Mas a realidade não é tão cor-de-rosa assim." Além da falta de recursos para investir, há um problema mais imediato – e muito mais agudo.

Os bancos estão travando o financiamento do capital de giro das usinas, o que pode sufocá-las. Localizada em Sertãozinho, no interior de São Paulo, a tradicional usina Albertina recorreu recentemente à recuperação judicial para evitar que seus credores pedissem a falência da companhia. A Albertina tem uma dívida estimada em 100 milhões de dólares, mais de 50% com vencimento previsto para os próximos 12 meses. O grupo Naoum, de Goiás, também ingressou com um pedido de recuperação judicial para evitar a paralisação de suas três usinas – Santa Helena, Jaciara e Pantanal, que faturam mais de 300 milhões de reais por ano.

Talvez a principal conseqüência da crise financeira atual seja a demonstração de que o setor tinha pouca solidez – e de que essa fraqueza era ocultada no período de abundância de recursos. Os custos de produção, por exemplo, vêm crescendo a uma velocidade preocupante. Nos últimos 18 meses, custos básicos como mão-de-obra, frete, fertilizantes e outros insumos subiram 25%. Se a demanda de açúcar e álcool viesse crescendo a um ritmo semelhante, não haveria problema: os produtores simplesmente repassariam o aumento de custos para seus compradores.

Mas isso se provou impossível. Em razão dos altos investimentos dos últimos anos, o setor tem hoje um excesso de capacidade. Ou seja, produz mais que a demanda dos mercados local e internacional. Estima-se que, na safra 2008/2009, sejam produzidos 27 bilhões de litros de etanol no país. A demanda global não vai passar de 25 bilhões de litros. "Desde o início do ano, algumas empresas vendem etanol abaixo do custo para fazer caixa e garantir a expansão", diz André Rocha, presidente do Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool de Goiás (Sifaeg). "Com a crise, a situação das usinas ficou ainda mais frágil."

A combinação de dificuldades resulta num cenário desafiador até mesmo para os principais grupos do país. A Santelisa Vale, terceira maior empresa do setor, vive um momento crítico. Chefiada pelo empresário André Biagi, a Santelisa era um exemplo da nova fase do mercado sucroalcooleiro local. A empresa, resultado da fusão da usina Santa Elisa com a Vale do Rosário, recebeu investimento de gigantes como o banco de investimento americano Goldman Sachs e o fundo Riverstone. Em 2007, foi a melhor e mais rentável companhia do setor. Há, porém, um problema: a Santelisa carrega uma dívida pesada demais. Segundo EXAME apurou, essa dívida é estimada em 2 bilhões de reais. Boa parte se deve ao empréstimo de 1,3 bilhão de reais feito pelo BBI, braço de investimentos do Bradesco, para concretizar a fusão entre Santelisa e Vale do Rosário em fevereiro de 2007. Um débito de cerca de 300 milhões de dólares foi originado em contratos de operações cambiais.

A dívida da Santelisa equivale a um ano de seu faturamento, estimado em 1,8 bilhão de reais por ano. Em razão do custo dessa dívida, a companhia tem negociado com os fornecedores de cana-de-açúcar o pagamento de metade do que deve à vista e o restante em 30 dias. A empresa chegou a colocar 14 terrenos à venda para fazer caixa. Segundo EXAME apurou, a Santelisa ainda estuda demitir 20% dos funcionários para diminuir a folha de pagamentos em 12%. No final de 2008, estima-se que a Santelisa vá registrar um prejuízo de 800 milhões de reais. "A situação é crítica", diz um executivo familiarizado com os números da empresa.

Recentemente, a Santelisa contratou a consultoria Angra Partners, especializada em reestruturações corporativas. O objetivo da Angra Partners é renegociar as dívidas do grupo e procurar um sócio para fazer uma injeção de capital. A venda da empresa não é descartada. O problema, porém, é que o valor de mercado de companhias do setor está em suas mínimas históricas – e seria praticamente impossível pagar a dívida de 2 bilhões de reais, mesmo com a venda do negócio. Procurados, os donos da Santelisa Vale não quiseram dar entrevista. (Em nota enviada à redação, a Santelisa nega que estuda fazer demissões e informa que mantém seus projetos e continua confiante no sucesso de seus negócios.)

Apesar da crise atual, o etanol brasileiro ainda é extremamente competitivo. Nem mesmo a abrupta queda recente no preço do petróleo é capaz de torná-lo necessariamente deficitário. Estima-se que o etanol brasileiro seja competitivo mundialmente com o barril de petróleo cotado a pelo menos 40 dólares. No fim de novembro, o barril custava cerca de 50 dólares no mercado internacional. No mercado local, responsável por cerca de 85% das vendas do etanol brasileiro, a situação é menos complexa.

Como o governo tabela o preço dos combustíveis, o álcool e a gasolina mantiveram nos últimos anos uma proporção de preço que fez do etanol uma opção mais econômica para o consumidor. Hoje, o etanol responde por 51% de todo o combustível comercializado no Brasil. E mais de 90% dos veículos novos vendidos no país têm motor flex – o equivalente a 2,5 milhões de unidades por ano. Caso o governo permita a diminuição do preço da gasolina, porém, o risco para o etanol aumenta. Como o rendimento do álcool é cerca de 30% inferior, o etanol só é viável se seu preço for equivalente a, no máximo, 70% do valor da gasolina.

A indústria sucroalcooleira é altamente fragmentada no Brasil. Existem mais de 150 grupos usineiros no país, e pelo menos 90% deles são controlados por famílias. Os dez maiores grupos detêm, juntos, aproximadamente 35% do mercado. Os analistas esperam, há anos, que um processo de consolidação diminua o número de empresas – mas, como os anos eram de euforia, os preços cobrados pelos empresários sondados eram altos demais, o que diminuiu o ímpeto de grupos internacionais.

A atual mudança de cenário, porém, colocará enorme pressão em grupos menos sólidos. "Com as empresas altamente endividadas, abre-se uma brecha para a entrada de novos participantes", diz o economista Guilherme Nastari, diretor de novos projetos da consultoria Datagro, especializada em agronegócio. A oportunidade parece mais tentadora para grandes grupos estrangeiros.

Empresas como Bunge, Cargill e ADM já tinham tentado estrear ou ampliar sua participação no setor em 2007, mas desistiram por considerar os preços muito elevados. Agora, a situação mudou. Um dos primeiros movimentos das gigantes internacionais pode ser a compra do grupo Nova América, um dos maiores do setor, que fatura 1,5 bilhão de reais por ano. Bunge e Cargill estão na disputa. Com maior fôlego financeiro, empresas como essas podem se dar ao luxo de olhar para o longo prazo – e, infelizmente, é no longo prazo que as perspectivas para o etanol brasileiro são mais promissoras.

Denise Carvalho
27/11/2008


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