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Diante de desastres climáticos, Bolívia discute saber indígena

Em congresso realizado em La Paz, estudiosos questionam modo de vida ocidental; sociólogo aimará prega novo paradigma e põe em xeque conceitos como sustentabilidade, desenvolvimento, ecologia e até solidariedade

La Paz – A reação do presidente Evo Morales às impiedosas enchentes que castigaram extensas áreas do território boliviano foi amplamente divulgada pela imprensa mundial. Evo prontamente ligou a recorrência de desastres meteorológicos aos cada vez mais intensos ao modo de vida, de produção e de consumo dos países ricos, fatores que contribuem sobremaneira com o aquecimento global. As mudanças climáticas estão entre as principais explicações para o agravamento do fenômeno "La Niña", desequilíbrio caracterizado pelo esfriamento das águas superficiais do Oceano Pacífico e pelo conseqüente adensamento de chuvas no continente.

Sociólogo aimará Fernando Huanacuni afirma que sustentabilidade, desenvolvimento, ecologia e até solidariedade são parte de lógica ocidental baseada no poder e na hierarquia

A convocação feita pelo governo da Bolívia para ampliar a discussão sobre as causas e as possíveis alternativas desses transtornos ambientais, no entanto, não foi noticia. Representantes indígenas – como Elías Quelca, do Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu [nomes originários de territórios aimarás] (Conamaq) -, membros de movimentos camponeses e sociais, acadêmicos e pesquisadores especialistas de diversos paises da América Latina e da Europa – entre eles, o português Boaventura de Sousa Santos – estão reunidos desde a ultima terça-feira (19) num hotel de luxo da capital boliviana para debater "A construção da sustentabilidade a partir da visão dos povos indígenas".

Na abertura do evento, o vice-ministro de Biodiversidade, Recursos Florestais e Meio Ambiente, Juan Pablo Ramos, manifestou a intenção governamental de valorizar cada vez mais os conhecimentos tradicionais seculares em busca de uma "lógica diferente para enfrentar os desastres climáticos". "A racionalidade econômica, o consumo e a depredação da natureza estão nos levando à debacle", assinalou, sem antes citar o manejo hidráulico praticado pelas civilizações pré-colombianas como exemplo desses saberes perseguidos e desprezados pela cultura ocidental.

"Nunca tivemos um período tão devastador na historia do mundo como nos últimos 30, 40 anos. E nunca se falou tanto em salvar o mundo como neste mesmo período. Isso mostra que o ambientalismo também precisa se reavaliar", destacou o geógrafo brasileiro Carlos Walter Porto-Goncalves, em exposição complementar no ato de inauguração do encontro.

Autor de um livro publicado recentemente sobre os impactos ambientais do programa neoliberal no mundo, Carlos Walter destacou ainda a ocorrência de dois outros fenômenos complementares: a expansão do agronegócio e de suas monoculturas – no contexto da chamada "Revolução Verde" – e o forte movimento de concentração nos espaços urbanos. Mesmo assim, lembra o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), apenas em 2007 a população das cidades ultrapassou a do campo, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU). "E o mais impressionante é que 70% da população urbana vive na Ásia, na América Latina e na África".

O geógrafo ratificou ainda o pensamento do pesquisador mexicano Enrique Leff, para quem "a crise ambiental é a manifestação da crise do conhecimento". A divisão entre ciências naturais e ciências humanas, que marca a dicotomia entre o homem e a natureza, instituiu, segundo Carlos Walter, o paradigma "ego-lógico". Na visão dele, essa dissociação não foi apenas conceitual e permitiu, na prática, a efetiva expulsão de indígenas e camponeses (e suas espiritualidades) do meio rural. Com essa dessacralização, prosseguiu o professor, consolidou-se o padrão do "homem como sujeito" e da "natureza como objeto". "Desenvolvimento é exatamente isso", definiu.

Contudo, a própria máquina a vapor, uma das "maravilhas" do mundo moderno, contém, de acordo com o geógrafo, a contradição da sociedade ocidental. O conhecimento humano sobre a utilização do carvão e do ferro não permitiu a produção de fato de nenhum desses recursos naturais e deixou claro os limites da concepção antropocêntrica. "A sociedade que acreditou ter se separado da natureza levou ao aquecimento global", arrematou.

As Nações Unidas estimaram, em 2002, que 20% dos paises ricos consomem 86% dos recursos naturais do planeta. Para ele, não há como sustentar esse modelo de sociedade, mas outros tipos de conhecimentos continuam sendo cultivados em regiões que ficaram à margem desse processo.

A exposição do sociólogo e advogado aimará Fernando Huanacuni negou justamente o enfoque dos debates propostos pelo governo boliviano. Sustentabilidade, desenvolvimento, ecologia e até solidariedade fazem parte de uma lógica imposta pelo pensamento ocidental baseado no poder e na hierarquia, afirmou Fernando. "Solidadariedade supõe hierarquia. Aquele que tem mais condicões doa para o outro".

Todos esses termos, acrescentou o sociólogo, estão calcados na idéia de homogeneidade, de uma só verdade, que desqualifica o outro. A aceitação desse entendimento linear e ascendente da história desautoriza completamente os conhecimentos tradicionais dos "avós" indígenas, emendou.

Ele propõe a adoção de uma lógica diferente com base na reciprocidade – paradigma comunitário – e na circularidade da história, em que os de antes e os de hoje sempre se encontram. "Na cosmovisão indígena, se um ganha, todos perdemos", explicou. "Não há solidão no ayni [denominação dada as relações sociais e de vida nos ayllus]. A complementaridade é permanente. Se tudo vive, tudo está interconectado".

O congresso "A construção da sustentabilidade a partir da visão dos povos indígenas", que termina nesta quinta-feira (21), deve aprovar documentos básicos de princípios que servirão de base para o prosseguimento da formulação de propostas relacionadas ao tema.


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14 Comentários

  1. Antonio Celso

    Mesmo os indigenas devastavam. Houve civilizações que sucumbiram assim.

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  2. Paulo Machado

    Seria interessante explicar melhor esses paradigmas: “Ele propõe a adoção de uma lógica diferente com base na reciprocidade – paradigma comunitário – e na circularidade da história, em que os de antes e os de hoje sempre se encontram.” Como eles funcionam na prática?
    Abraços
    Paulo Machado

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  3. Flavio

    O conceito é lógico e oportuno.
    Quando há problemas no final , melhor caminho é voltar para o inicio.
    Trata-se de laboratorio comum …, otimo para “novo metodo”.

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  4. Wilson Simão

    Isso já teve época ,é melhor os índios discutirem as imagens de satélites. Com certeza vão entender mais que os meteorologistas de plantão, que o processo das chuvas bolivianas são decorrentes da posição do país encravado nas cordilheiras, central e oriental dos Andes, que por sua vez forma um núbifero.natural originado na interferência do sentido de circulação, das nuvens de convecção formadas na floresta amazônica. Energeticamente falando, chuvas em lugares altos valem seu peso em ouro, os bolivianos deveriam estar felizes com isso. Se os administradores permitirem… acho que possuo algo a respeito nessa URL. http://br.geocities.com/simaowilson/relatorio.html

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  5. Wilson Simão

    Isso já teve época ,é melhor os índios discutirem as imagens de satélites. Com certeza vão entender mais que os meteorologistas de plantão, que o processo das chuvas bolivianas são decorrentes da posição do país encravado nas cordilheiras, central e oriental dos Andes, que por sua vez forma um núbifero.natural originado na interferência do sentido de circulação, das nuvens de convecção formadas na floresta amazônica. Energeticamente falando, chuvas em lugares altos valem seu peso em ouro, os bolivianos deveriam estar felizes com isso. Se os administradores permitirem… acho que possuo algo a respeito nessa URL. http://br.geocities.com/simaowilson/relatorio.html

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  6. José Bonfim

    Realmente é preciso restabelecer o conceito de desenvolvimento para que não se crie uma contradição com o de sustentabilidade.
    Não basta denunciar os países ricos é fundamental que os da África, Ásia e América Latina entendam que sem a formação de blocos, que permitam uma menor dependência dos EUA, UE e Japão, não será possível barrar a destruição dos recursos naturais em nome do “crescimento econômico”, nem poderá haver uma distribuição da renda mundial, que dê fim a situação de miséria em que vice a maior parte da população mundial.

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  7. Cesar

    Viva Peron!

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  8. Oamiz Nozliw

    Ciência feito nas coxas só dá nisso, melhor que consultem então um astrologo, na wikipédia existem aos montes..

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  9. Djalma Cerezini Filho

    Louvavel a preocupação, mais daí trocar o avanço cientifico da civilização por tradições de indigenas mascadores de coca é uma coisa muito distante. estou começando a observar que os redatores deste site são adeptos do atraso.

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  10. Maria Santos

    O fator desencadeante do efeito estufa é a busca de produção e lucratividade num capitalismo desenfreado, sem medir as consequencias disso para a vida na terra, a ciência está atrasada e é debil e lenta para acompanhar o processo de destruição que avança vorazmente, algo precisa ser feito, mesmo que precise usar junto com a ciência construtiva tecnicas rudimentares para salvar a vida, pois quem disse que o capital e a ciência salvará nosso planeta da destruíção sendo eles os fatores centrais dessa degradação?

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  11. DARIO L P AZEVEDO

    Toda a preocupaçõe hoje xistente no mundo em torno da atual a futura vida na terra é procedente, destruir todo um bioma em nome do progresso não tem sentido, vejamos as lavouras no cerrado e na floresta amazônica. Entendo que primeiro temos que dar ao povo condições de consumo, ser país exportador de produtos in natura sem agregar valores é desperdício e o futuro cobrará das novas gerações. Ostentar títulos de maior exportador de grãos, gerando pouco emprego e renda para poucos, acentua cada vez mais a extratificação social.E tudo o que se está destruindo creio que levaremos séculos para recuperar. Questiono o que é bem estar? produtos de consumo ou ar e agua puros, ou viverei sem água e ar?

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  12. Felipe Fontoura

    Só foram acordar pro problema quando não ha mais solução, a maneiras de conseguir amenizar o problema, mas seria preciso que todos os países se unissem em 1 só. Provavelmente só vai acontecer nos últimos momentos. Quem devia acordar era principalmente os países “grandes”, mas na verdade são eles que acabam gastando e gastando cada vez mais de nossa natureza. Então eu peço que cada um se conscientise um pouco, que se cada um se conscientisar de repente pode haver algum tipo de solução.

    Felipe 12anos São Gonçalo, RJ

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  13. Yvelise Druziani

    Um assunto que causa muitas divergências… Grata por terem a coragem de publicar. Para aqueles que tem uma visão mais aberta e que gostaríam de se aprofundar no tema, leaim também as colocações de Winona LaDuke, índia americana, formada na Harvard. Os índios já tinham desenvolvido uma sociedade sustentável, basta coragem para reconhecer isto. Parabéns.

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  14. Wilson Simão

    Sr Evo, já entraram em contato com o Instituto de Ciências Exatas, Cacique Cobra Coral ? Senão ? recomendo-os, eles tem feito muita chuva por aqui.

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