A Repórter Brasil está sob censura judicial desde o dia 9 de outubro de 2015. Saiba mais.

Como se desmata

Todo dia, três mil e quinhentos caminhões circulam na Amazônia com madeira ilegal. Mais de dois mil e quinhentos levam toras para as serrarias; pelo menos 900 grandes caminhões saem com madeira serrada para os consumidores em outros estados, principalmente para São Paulo. Nada é secreto, tudo se sabe. As áreas desmatadas viram campo onde já pastam 80 milhões de cabeças. Tudo se sabe. A notícia que provocou ontem reunião de emergência no Planalto já se sabia. Quando o presidente Lula esteve na ONU comemorando a queda do desmatamento, em setembro, o governo já sabia que a destruição da floresta tinha voltado a subir. Desde maio do ano passado, a comparação com o mesmo mês do ano anterior mostrava aumento. Em agosto, acendeu a luz amarela, e o governo foi informado. Agora, o que acendeu foi a luz vermelha. Adalberto Veríssimo, do Imazon, explica que o ano fiscal do desmatamento vai de agosto a julho. Por isso, esse aumento não entrou no dado de 2007. – Em agosto, já estava bem superior, e dissemos isso. O governo não acreditou. O desmatamento tem sazonalidade. Vai de maio a outubro. Novembro e abril são residuais. A entressafra é de dezembro a março. No último dezembro, não parou. Veríssimo acha que pode ser pela demanda para o aquecido setor de construção, ou a expectativa de mais pastos para a pecuária, que ocupa 78% de toda a área desmatada ilegalmente na Amazônia. – A margem de lucro da atividade madeireira é tão grande, de 80% a 100%, porque normalmente ocupam terra pública, não gastam com terra, podem investir em infra-estrutura, como estradas, para retirar a madeira. Primeiro, cortam-se as árvores mais valiosas: cedro, ipê, freijó. Depois, na segunda onda, maçaranduba, angelim, jatobá. Por fim, jarana, taxi. São entregues aos mais variados mercados consumidores. Às vezes, elas andam por aí com nome trocado. As castanheiras, por exemplo, têm o codinome de cedrinho. O que é retirado legalmente, com selo de manejo sustentável, vai para exportação. Mas até a exportação tem madeira ilegal. O Brasil é o segundo maior exportador de madeira tropical do mundo. Depois da Indonésia, que, em breve, não terá mais floresta. Cerca de 66% da madeira tropical tirada da Amazônia fica no Brasil. Quase tudo ilegal. O caminho até o consumidor final é assim: – Se a conta for feita com os 365 dias do ano, são 900 os caminhões grandes todo dia com madeira serrada que vão para Sul, Sudeste ou Nordeste. Primeiro, vão para os grandes armazéns de venda de madeira a varejo. Num levantamento que fizemos, encontramos dois mil depósitos desses só no estado de São Paulo. Da madeira retirada da Amazônia, 20% vão para São Paulo. Uma grande parte vai diretamente para as grandes empresas de construção. Madeira tropical usada em telhado, por exemplo, dura 300 anos. Antigamente era usada a da Mata Atlântica. Com o boom da construção, prevejo um aquecimento forte. Outra parte vai para a indústria de móveis, mas hoje essa indústria está trocando madeira tropical por madeira plantada – diz Beto Veríssimo. O madeireiro que ocupou ilegalmente e desmatou leva alguns anos para tirar todas as espécies aproveitadas. Aí ele dá o segundo passo: abate a floresta e prepara o terreno para a pecuária. Abater significa queimar. Ou seja, os incêndios que se vêem são apenas o fim do crime. O enterro da mata. Depois entra o gado e, nas áreas com menos chuvas e bom escoamento, a soja. E o madeireiro vai mais fundo na floresta para outra área de destruição. Ou vira pecuarista. Depois, consegue ou forja documentos da área e vende […]

Todo dia, três mil e quinhentos caminhões circulam na Amazônia com madeira ilegal. Mais de dois mil e quinhentos levam toras para as serrarias; pelo menos 900 grandes caminhões saem com madeira serrada para os consumidores em outros estados, principalmente para São Paulo. Nada é secreto, tudo se sabe. As áreas desmatadas viram campo onde já pastam 80 milhões de cabeças.

Tudo se sabe. A notícia que provocou ontem reunião de emergência no Planalto já se sabia. Quando o presidente Lula esteve na ONU comemorando a queda do desmatamento, em setembro, o governo já sabia que a destruição da floresta tinha voltado a subir.

Desde maio do ano passado, a comparação com o mesmo mês do ano anterior mostrava aumento. Em agosto, acendeu a luz amarela, e o governo foi informado. Agora, o que acendeu foi a luz vermelha.

Adalberto Veríssimo, do Imazon, explica que o ano fiscal do desmatamento vai de agosto a julho. Por isso, esse aumento não entrou no dado de 2007.

– Em agosto, já estava bem superior, e dissemos isso. O governo não acreditou.

O desmatamento tem sazonalidade. Vai de maio a outubro. Novembro e abril são residuais. A entressafra é de dezembro a março. No último dezembro, não parou. Veríssimo acha que pode ser pela demanda para o aquecido setor de construção, ou a expectativa de mais pastos para a pecuária, que ocupa 78% de toda a área desmatada ilegalmente na Amazônia.

– A margem de lucro da atividade madeireira é tão grande, de 80% a 100%, porque normalmente ocupam terra pública, não gastam com terra, podem investir em infra-estrutura, como estradas, para retirar a madeira.

Primeiro, cortam-se as árvores mais valiosas: cedro, ipê, freijó. Depois, na segunda onda, maçaranduba, angelim, jatobá. Por fim, jarana, taxi. São entregues aos mais variados mercados consumidores. Às vezes, elas andam por aí com nome trocado. As castanheiras, por exemplo, têm o codinome de cedrinho.

O que é retirado legalmente, com selo de manejo sustentável, vai para exportação. Mas até a exportação tem madeira ilegal. O Brasil é o segundo maior exportador de madeira tropical do mundo. Depois da Indonésia, que, em breve, não terá mais floresta. Cerca de 66% da madeira tropical tirada da Amazônia fica no Brasil. Quase tudo ilegal. O caminho até o consumidor final é assim:

– Se a conta for feita com os 365 dias do ano, são 900 os caminhões grandes todo dia com madeira serrada que vão para Sul, Sudeste ou Nordeste. Primeiro, vão para os grandes armazéns de venda de madeira a varejo. Num levantamento que fizemos, encontramos dois mil depósitos desses só no estado de São Paulo. Da madeira retirada da Amazônia, 20% vão para São Paulo. Uma grande parte vai diretamente para as grandes empresas de construção. Madeira tropical usada em telhado, por exemplo, dura 300 anos. Antigamente era usada a da Mata Atlântica. Com o boom da construção, prevejo um aquecimento forte. Outra parte vai para a indústria de móveis, mas hoje essa indústria está trocando madeira tropical por madeira plantada – diz Beto Veríssimo.

O madeireiro que ocupou ilegalmente e desmatou leva alguns anos para tirar todas as espécies aproveitadas. Aí ele dá o segundo passo: abate a floresta e prepara o terreno para a pecuária.

Abater significa queimar. Ou seja, os incêndios que se vêem são apenas o fim do crime. O enterro da mata.

Depois entra o gado e, nas áreas com menos chuvas e bom escoamento, a soja. E o madeireiro vai mais fundo na floresta para outra área de destruição. Ou vira pecuarista. Depois, consegue ou forja documentos da área e vende para outro pecuarista. Esse, supostamente legal, é que se senta na mesa com os ministros. Mas, se for feito um rastreamento, se verá que a fazenda está em área recentemente desmatada e recentemente roubada do setor público. Hoje velhos pecuaristas estão indo mais fundo, e deixando as terras para grandes grupos com ares de empreendedores. Quando o ministro Reinhold Stephanes diz que não é a agropecuária a responsável pelo desmatamento, ele demonstra não entender – ou fingir não entender – a dinâmica da destruição da floresta. A cana, por exemplo, ocupa as áreas melhores do Sudeste e do Centro-Oeste e empurra o gado mais para a Amazônia.

Tudo se sabe na Amazônia. Já se sabe a floresta que está marcada para morrer.

– Ninguém decide desmatar de uma hora para a outra. É uma morte anunciada. A gente sabe para onde eles estão indo. É nos municípios onde mais se desmata – São Félix do Xingu, Conceição do Araguaia, Marabá, Redenção, Cumaru do Norte, Ourilândia, Palestina do Pará – que se encontra o cinturão da carne – comenta Beto.

– São Félix do Xingu é um caso muito interessante: a cidade é uma das maiores criadoras de gado, é recordista em desmatamento acumulado e uma das recordistas em ação de trabalho escravo – diz Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil. Ele registra que 62% dos casos de trabalho escravo acontecem nas fazendas de pecuária.

Tudo de sabe. Inclusive como combater os crimes. Beto Veríssimo acha que o caminho é cortar todos os muitos incentivos econômicos que existem hoje no Brasil para se destruir, impunemente, a maior floresta tropical da Terra.

PANORAMA ECONÔMICO –  Míriam Leitão – 25/1/2008


Apoie a Repórter Brasil

saiba como

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *